Undisclosed
Tudo parecia perfeito. O dia de ontem tinha sido fantástico. Adoro passear no outono. No campo, o cheiro adocicado do mosto e as cores avermelhadas das folhas deliciam os meus olhos. As camisolas vão protestando com o frio e amaciam as pequenas carícias de Estela. Estela estava mais madura. Mais mulher. O sorriso, esse, tinha desvanecido um pouco. Talvez a distância tenha apagado o fogo que ardia entre nós. Ou talvez nos tivéssemos tornado estranhos conhecidos. Não quero saber! O que interessa é que ela estava aqui. O mosto, as folhas vermelhas das caducas, o frio seco a espreitar por baixo do cachecol. Tudo perfeito com ela. De volta à cidade, calcámos as ruas. Análise detalhada das montras. De preços. Algumas compras. Coisas supérfulas. Risos. Carícias. Beijos. Ah Cumplicidade de novo! Ao longe a lenga-lenga do vendedor de castanhas assadas. «Um cone, por favor.» Caríssimos, não há nada mais sexy e reconfortante como ver uma castanha a fumegar nos lábios de uma mulher. Como tinha dito ao início, tudo perfeito. Até evitámos o Reis. Amigo de longa data, que é deveras indiscreto. Um perfeito chato. Eu já tinha o hábito de o evitar, parece que as conversas eram sempre as mesmas. A conversa de ocasião que sinceramente já não tinha vontade de ter. E Estela percebeu. Foi solidária. Fez com que eu a olhasse com admiração, mas senti que o meu olhar não foi bem recebido. Senti culpa. Minha. Dela. Não interessa, prefiro evitar pessoas que não acrescentam nada à minha vida. Sou assim. «Passamos por casa e depois vamos jantar?»
...
A caminho do restaurante senti a distância a aumentar. Os sorrisos, as carícias, a cumplicidade estavam agora distantes. Entre nós, as notas musicais dançavam e quebravam aquele silêncio que tanto sentido faria mais tarde. À chegada, o restaurante parecia uma salvação. Um porto de abrigo, lugar onde incendiaria de novo o coração de Estela. Tudo perfeito. «Boa noite!» Tanto o evitei que o haveria de encontrar no restaurante. Exactamente! Sentado com outro homem estava o Reis. Aquele homenzinho insignificante, um verdadeiro necrófago de mexericos. Por momentos ri-me de mim próprio, achei-me patético. Desmanchei-me em cumprimentos cordiais. Reis parecia que iria iniciar mais uma das conversas de ocasião ou mesmo um convite para me juntar aos dois convivas mas...«Vim jantar com o Sr. Borges e queria te dizer que a tua namorada já não é Sra. Costa mas é Sra. Borges!» Estela estremeceu. Senti aquela onda de choque produzida por uma explosão que só vimos em testes nucleares. «Sr. Borges, muito prazer e bom apetite! Reis, é sempre um prazer! A fome impeliu-me para a minha mesa. No conforto da mesa, perfumada com as flores que tinha encomendado, a ementa ordenava que escolhesse. Pousei-a, já não a conseguia ouvir. «Estela, parece que temos que falar.»
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A caminho do restaurante senti a distância a aumentar. Os sorrisos, as carícias, a cumplicidade estavam agora distantes. Entre nós, as notas musicais dançavam e quebravam aquele silêncio que tanto sentido faria mais tarde. À chegada, o restaurante parecia uma salvação. Um porto de abrigo, lugar onde incendiaria de novo o coração de Estela. Tudo perfeito. «Boa noite!» Tanto o evitei que o haveria de encontrar no restaurante. Exactamente! Sentado com outro homem estava o Reis. Aquele homenzinho insignificante, um verdadeiro necrófago de mexericos. Por momentos ri-me de mim próprio, achei-me patético. Desmanchei-me em cumprimentos cordiais. Reis parecia que iria iniciar mais uma das conversas de ocasião ou mesmo um convite para me juntar aos dois convivas mas...«Vim jantar com o Sr. Borges e queria te dizer que a tua namorada já não é Sra. Costa mas é Sra. Borges!» Estela estremeceu. Senti aquela onda de choque produzida por uma explosão que só vimos em testes nucleares. «Sr. Borges, muito prazer e bom apetite! Reis, é sempre um prazer! A fome impeliu-me para a minha mesa. No conforto da mesa, perfumada com as flores que tinha encomendado, a ementa ordenava que escolhesse. Pousei-a, já não a conseguia ouvir. «Estela, parece que temos que falar.»




